Trabalhar como freelancer para clientes de outros países é uma possibilidade cada vez mais comum para quem decidiu seguir a carreira independente. Design, programação, redação, marketing, consultoria e vários outros trabalhos podem ser feitos à distância, sem que eu precise estar no mesmo país que o cliente.
Mas, esse lindo sonho de ganhar em dólar traz uma dor: quando comecei a trabalhar com clientes internacionais, uma das questões práticas que precisei resolver foi justamente essa: como receber em dólar sendo freelancer? Como perder menos nas taxas?
Encontrar o cliente e fechar o projeto é uma parte do processo. Depois disso, ainda preciso definir a forma de pagamento, entender as taxas envolvidas e decidir o que fazer com o dinheiro depois que ele chega.
Como já existem diferentes maneiras de receber pagamentos do exterior, neste artigo vou focar principalmente na minha rotina e em como uma conta em dólar pode facilitar esse processo.
Eu cobro meus clientes em dólar – e penso a precificação assim
Quando presto um serviço para um cliente internacional, normalmente já estabeleço o preço em dólar.
Isso facilita bastante a negociação. Se um projeto custa US$ 800, por exemplo, esse é o valor que apresento ao cliente. Não preciso ficar fazendo a conversão para reais durante a negociação ou alterar o preço de acordo com a cotação.
Também prefiro pensar no preço do meu serviço considerando o mercado em que estou atuando. Não é porque meu trabalho custa determinado valor em reais que basta converter esse número para dólar e pronto.
Dependendo do serviço, do cliente e do mercado, o preço praticado no exterior pode ser diferente. E, maior, tá?
Como recebo o pagamento do cliente
Se o cliente está nos Estados Unidos, uma alternativa é receber por transferência bancária em dólar. Isso é, em uma conta corrente americana de verdade, não em plataformas como PayPal em que você apenas recebe/transfere/usa o saldo do valor recebido.
Eu já testei várias (e compartilhei com vocês por aqui). Hoje eu uso a internacional da Avenue (faz parte do Itaú), em que é possível receber transferências em dólar por ACH e Wire, de acordo com as condições da conta.
Para quem recebe de clientes americanos com frequência, isso pode ser mais conveniente do que depender de uma solução diferente a cada pagamento.
Antes de combinar o pagamento, eu verifico com o cliente qual tipo de transferência ele utiliza. Isso é importante porque ACH e Wire são modalidades diferentes e podem exigir informações bancárias específicas.
Por que ter uma conta em dólar pode ser interessante
Uma das coisas que considero mais úteis é não precisar converter imediatamente todo o dinheiro que recebo.
Se recebi US$ 2.000 por um projeto, por exemplo, posso ter despesas em reais e também despesas em dólar. Não necessariamente preciso transformar os US$ 2.000 inteiros em reais. Aqui, uso banco de imagens, IAs e outras ferramentas que posso optar em pagar em dólar, tanto por transferência quanto com o cartão de débito.
Se eu já tenho saldo nessa moeda, consigo utilizá-lo para essas despesas, em vez de converter o dinheiro para reais e depois precisar comprar dólar novamente – nesses casos, incide IOF e spread em cada transação, comendo um pouco do valor recebido.
E também posso manter uma parte em dólar e converter apenas o que vou utilizar no Brasil, acompanhando a cotação do dólar.
Eu não preciso converter todo o dinheiro que recebo
Essa possibilidade é especialmente interessante para quem trabalha como freelancer e tem uma renda variável.
Imagine que eu receba US$ 3.000 em determinado mês. Parte desse valor pode ser necessária para minhas despesas no Brasil. Outra parte pode ficar reservada para despesas internacionais ou simplesmente permanecer em dólar, inclusives em investimentos internacionais.
Isso me permite decidir quando fazer o câmbio, em vez de converter automaticamente tudo assim que recebo.
É claro que isso não significa que seja sempre melhor manter o dinheiro em dólar. A decisão depende dos meus objetivos, das minhas despesas e do planejamento financeiro. O ponto é ter a opção de escolher.
Como eu organizo os pagamentos dos clientes
Para não transformar cada recebimento em uma negociação diferente, gosto de deixar as condições de pagamento definidas antes de começar o trabalho.
Por exemplo:
Serviço: criação de um site
Valor: US$ 1.500
Pagamento: 50% no início e 50% na entrega
Forma de pagamento: transferência bancária em dólar
Se o cliente já sabe como deve fazer o pagamento e eu tenho os dados bancários necessários, o processo fica mais simples.
Para trabalhos recorrentes, também posso estabelecer uma data fixa para os pagamentos. Isso facilita o controle do meu fluxo de caixa e ajuda a saber quando devo esperar cada recebimento.
E quando preciso transformar dólar em real?
Mesmo trabalhando para clientes internacionais, boa parte das minhas despesas continua sendo em reais.
Por isso, em algum momento vou precisar converter parte do que recebi.
A diferença é que, mantendo o dinheiro em uma conta em dólar, posso decidir quanto converter.
Se naquele mês preciso de R$ 5.000 para minhas despesas, por exemplo, posso converter apenas o valor necessário, em vez de transformar todo o meu saldo em dólar.
Também consigo acompanhar melhor quanto tenho disponível em cada moeda.
Preciso pagar impostos sobre o que recebo?
Sim. Receber em dólar não significa que a renda deixa de estar sujeita às obrigações fiscais brasileiras.
A forma de declarar e tributar os valores recebidos do exterior depende da situação de cada profissional, incluindo fatores como atuação como pessoa física ou jurídica e tipo de serviço prestado.
Para quem começa a receber valores maiores ou passa a ter clientes internacionais de forma recorrente, vale conversar com um contador para entender a melhor forma de organizar essa atividade.
A conta em dólar é apenas a forma de receber e movimentar o dinheiro. Ela não muda, por si só, as obrigações tributárias.
O que eu observo ao escolher uma conta em dólar
Antes de escolher onde vou receber meus pagamentos, não olho apenas se a instituição oferece uma conta em dólar.
Também comparo alguns pontos que podem fazer diferença ao longo do tempo:
- como posso receber os pagamentos;
- quais tipos de transferência são aceitos;
- quanto custa receber;
- quanto custa converter dólar para real;
- qual é o spread cambial;
- se posso manter o saldo em dólar;
- como posso utilizar esse saldo;
- quais cartões e serviços estão disponíveis;
- quais são as tarifas e condições vigentes.
Isso é ainda mais importante quando os pagamentos são frequentes. Uma diferença pequena em uma tarifa pode representar um valor considerável depois de vários meses recebendo em dólar.
Além disso, sou bastante receosa em relação à confiança em relação à instituição financeira e ao lugar onde o dinheiro fica “guardado” – esse foi um dos motivos pelos quais escolhi a Avenue, que tem o respaldo do Itaú.
Receber em dólar fica mais simples quando tenho uma rotina definida
Depois que começo a receber pagamentos internacionais com frequência, tento manter sempre o mesmo processo.
Fecho o valor do projeto em dólar, combino a data de pagamento com o cliente, envio os dados da conta e acompanho o recebimento.
Quando o dinheiro entra, separo o que vou precisar para despesas, o que quero manter em dólar e o que pretendo converter para reais.
Também mantenho o controle dos recebimentos para não misturar pagamentos de clientes diferentes e conseguir acompanhar quanto estou faturando com meu trabalho internacional.
Para quem trabalha como freelancer, essa organização é importante porque a renda nem sempre é igual todos os meses.
Uma conta em dólar pode fazer parte da minha estrutura como freelancer
Para quem recebe eventualmente do exterior, existem várias formas de fazer um pagamento internacional chegar ao Brasil.
Mas quando começo a trabalhar regularmente para clientes de outros países, passo a ter uma necessidade diferente. Não quero apenas receber o dinheiro. Quero conseguir movimentá-lo e organizar minha renda de uma forma que faça sentido para o meu trabalho.
É nesse cenário que uma conta em dólar pode ser útil.
No fim, receber em dólar sendo freelancer envolve algumas decisões simples: definir o preço do serviço, combinar a forma de pagamento, escolher uma conta adequada e decidir o que fazer com o dinheiro depois que ele chega.
Quando esses passos estão organizados, trabalhar com clientes internacionais passa a fazer parte da rotina financeira do freelancer, e não a ser uma operação complicada a cada novo projeto.
